domingo, 23 de março de 2008

Uma noite na Serra

É Verdade! Uma noite sozinho na serra! Uma experiência bastante enriquecedora em todos os sentidos. Porquê? Experimenta tu também!!! È espectacular...

Alguns Preparativos:


 
Aguns apontamentos:

Precisas de um saco-cama onde dormir, o meu é um HAGLÖFS outback zero, ou seja confortável até ao 0 graus de temperatura, para além disso é em fibra e bastante compressível. Neste caso retirei-o do saco de compressão e enrolei-o no pano de tenda de forma a fazer um chouriço para prender por cima da M64(espécie de mochila da tropa). Um pano de tenda vai servir-te para construires o teu abrigo com o sisal amarrado ás árvores para não teres de levar prumos. Leva o Cantil já cheio, não te esqueças dos agasalhos. Na minha situação levei um polar da Quechua e o casaco da farda 3 da tropa que é um bom cortavento. Um barrete e umas meias quentinhas de algodão de preferência. E também para a cabeça um chapéu. Se andares durante a tarde vais sentir falta disso. Velas e fósforos para a noite, material de corte se tiveres a certeza que vais precisar senão é absolutamente despensável. Mas não te esqueças do canivete! O meu é suiço. Máquina fotográfica, não vais querer perder nada. Estojo de higiene pa não andares porco e não correrem contigo quando voltares para casa. Papel e caneta - muito importante! E um bournal á frente para coisas rápidas, um chocolate por exemplo. E uma das coisas mais importantes, um mapa da serra e uma bússula. Arranja umas boas botas para "trekking" e põe-te a andar!




E aqui começa a aventura:

Ataquei a serra logo de manhã, e afastei-me a passos largos da civilização. Bastou-me um leite com café e uma tosta mista na pastelaria ideal para acordar e seguir o meu caminho. Eram cerca das 11 horas da manhã. A vila já fervilhava de gente, a maior parte turistas. Deixei para trás as pessoas e comecei a subir o monte.

Chamam-lhe monte da lua, como eu sempre o conheci. O nome têm origem romana, “Mons lunae”, e retrata o posicionamento do astro sobre a serra. Já presenciei esse fenómeno como bom sintrense que sou, e nessa noite de lua cheia estive bem mais perto dela, bem em cima do monte!

A determinada altura, a probabilidade de encontrar pessoas a pé é muito baixa e cumprimenta-se os ciclistas ou pessoas a cavalo com um acenar da cabeça vigoroso e um “Bom dia” bem audível. Também eles partilham o mesmo sentimento de harmonia com a serra. Ainda na estrada de alcatrão vindo da pena existe um cruzamento na tapada do mouco com um caminho de terra batida que desce até à estrada da penha longa passando pela Pedra Branca. Meti-me por ai apoderando-se de mim a ansiedade risonha de estar sozinho que se transformou na alegria que me deu força e determinação para continuar.

“Por vezes penso se tudo o que vejo é real e se existe mesmo na minha ausência e do meu olhar ou se o mundo está cá para me agradar. Descobri que a minha presença é insignificante aos olhos do universo, e que os pássaros continuam a piar, as árvores a estalar com vento à noite e as estrelas a explodir para lá do nosso sol, mesmo comigo a dormir. A natureza é tudo para mim, e a minha atenção e carinho estão ao seu serviço, de forma a retirar o melhor proveito. Olho e leio o mundo como quero e dou o sabor que quero ás coisas.”

Fui explorar a vertente Sul da serra que bastante pouco ou nada conheço. Esta zona como toda a floresta circundante é granítica e os blocos de granito atraem-me de uma forma estranha. Se está ali um caos de calhaus eu tenho de o subir. E foi exactamente o que aconteceu no marco Geodésico. Escalei com o auxílio da minha tronca, (foi ali que a encontrei) e foi ela que me acompanhou durante toda a aventura. A zona eucaliptica foi desbastada e poucas arvores se erguem acima dos 6 metros de altura. Apenas as rochas serviram de apoio para os pés e para as mãos. Mas já no alto a ventania era tal que se eu não estivesse bem agarrado seria levado como uma pena dali para o Tejo. De qualquer forma estava um dia de sol que permitiu uma boa vista sentado a almoçar. De frente para Lisboa mantos verdes de floresta estendiam-se nas minhas costas, onde um ou outro penedo rochoso despertava no cume de um monte. Bastante apelativos por sua vez. Num último olhar sobre a serra vislumbrei a peninha a cerca de 6 km, que seria a última etapa daquele dia. E tomei a minha decisão.

” - Continuarei nesta mesma direcção passando na barragem da mula e Pedra Amarela.”



Dali para a barragem não conhecia mais nada, e desci o caminho até a estrada da penha longa que iria lá dar. Andem cerca de 100m mas não me agradou nem a quantidade de carros nem o próprio caminhar duro em alcatrão ao qual já me tinha desabituado. Embrulhei-me então do novo nas árvores e cortei caminho por intuição até à mula, onde cheguei cerca de 20 minutos depois. Estendi-me ao sol à beira da água agarrado ao caderno de bolso que trouxe sempre comigo, e puz-me a pensar em tudo o que passei até ao momento, e no que estava ainda para vir em sucessão das minhas escolhas. Metade de uma barra de chocolate já fora…

“Os bons momentos de inspiração surgem naturalmente. Promovo momentos de reflexão em comunhão com a natureza e com os outros, mas o pensamento voa sem ter que saltar um muro ou uma montanha. Observo agora o ondular brilhante da água do lago, e a suavidade do toque molhado nas suas margens. É este o meu estado de espírito. Tranquilamente aquecido pelo sol e moldado e levado pelo vento em corpo e alma. Montanha acima, montanha abaixo a explorar os recantos do mundo, e do meu mundo. Por mais insignificante que seja aos olhos do Universo, contemplo a sua imensidão e procuro nela os pontos brilhantes que me guiam no meu caminho e me ajudam nas minhas escolhas. Confio na terra que amo.”

Olhei para o alto, para a torre de vigia da pedra amarela e voltei a andar. Contornei a barragem, e respirei fundo andes de iniciar o corta-fogo que une a mula à estrada da malveira.



Com uma inclinação a mais de 45 graus, não demoveu a caminhada, mas permitiu uma vista espectacular sobre todo o caminho que já tinha percorrido. Apenas o vento se tornara um pouco irritante. Esse, sim. Demoveu a minha vontade de atingir o topo da torre de vigia que parecia aterradora na forma como tudo à volta abanava. No primeiro patamar já pude observar o que me faltava para a peninha e o trilho que lá me levava. Nesta etapa apressei um pouco o passo na expectativa de chegar a tempo do maravilhoso pôr-do-sol que de lá se observa. E em cada passo senti o impacto do orgulho na terra que pisava. Parei na fonte antes da capela contemplando as praias a sudoeste e refresquei a cara e o corpo em dois ou três golos de água. Soltei um riso parvo e disse bem alto.

“ - Ah! Eu mando nisto tudo!”. E decidi conquistar a peninha por baixo.

Infelizmente já estava o céu nublado e o tempo um pouco triste e não pude assistir à descida do sol sobre o mar. A solidão era completa e o vento soprava rajadas. Entrei no bosque à esquerda, atrás da capela e procurei um local para dormir. Entre três ou quatro rochas num amontoado gigante de calhaus encontrei o lugar perfeito que fechei em todas as entradas com casca de pinheiro e ramagens de pitósporo facilmente arrancáveis. Jantei lá em cima e logo que o céu se tornou mais escuro voltei para o abrigo. O vento norte mudara de direcção e vinha agora do Oeste. Utilizei o pano de tenda como corta-vento na boca do abrigo e a outra metade no chão para o saco-cama. Por esta altura já tinha as mãos geladas e foi tudo um pouco improvisado na pressa de me deitar. Tinha a sensação que era um náufrago numa ilha perdida no oceano pacifico.
Acendi duas velas, uma vermelha e outra branca…

“É estranho acampar sozinho. Mas é uma experiência nova e maravilhosa. Parece que estou mais atento. Não tenho ninguém com quem falar, partilhar tudo o que sinto, e os ruídos do bosque multiplicam-se. Parece que são mil e um e são eternos, tal como a noite enquanto não adormeço. Sempre com a sensação que alguém se aproxima mas com plena consciência de que estou sozinho. É uma batalha dentro de mim. Posso escutar melhor a Terra à noite e conhecer os seus segredos. Está sempre a falar e basta um minuto de silêncio para perceber o que me diz.”

Soprei as velas…





Despertei no dia seguinte com o céu mais claro e os primeiros raios de luz a entrar no abrigo. Foi uma manhã maravilhosa. Acordei e espreguicei-me e ainda voltei a adormecer vezes sucessivas até que me levantei por volta das 10 horas, bati com a cabeça no bloco de cima e disse para mim mesmo que nesse dia seria o caminheiro mais ocidental da Europa. Arrumei a tralha toda, M64 ás costas, tomei o pequeno almoço em andamento e dirigi-me à Azoia por trilhos que ainda não havia experimentado

“Ao longo de todo o dia anterior e ao anoitecer pude analisar a capacidade de me desenrascar sozinho. E desenrasquei-me bem. Mas ao contrário do que pensava senti alguma falta de companhia. Talvez por estar habituado a tê-la sempre que ponho a mochila ás costas e a partilhar tudo o que sinto em cada passo, em cada olhar, e nas montanhas que subo. Mas a alegria por tudo o que passei era tão grande que superava qualquer dificuldade e o próprio sentimento de solidão substituído pela garra de estar por minha conta, ser independente."



Na entrada da Azoia apercebi-me do retorno à civilização. As casas cortavam a vista para o mar e o número de pessoas aumentava é medida que me aproximava do centro da vila tal como os olhares estranhos lançados sobre mim. Interrogo-me por vezes sobre o que as pessoas pensaram. Carregado com uma qualquer espécie de mochila da tropa e uns calções e um barrete. E o peito cheio de orgulho! Acabadinho de vir da serra depois de uma noite tão atribulada. Começara a chover e refugiei-me no café ocidente. Atrevi-me a tirar o barrete, mas os olhares multiplicaram-se na direcção do meu cabelo. Passei a mão no cabelo e devolvi o calor às orelhas.

A Azoia tem quase 2300 habitantes. O seu nome deriva do nome antigo az-zaviâ. Significa ermida, que é uma capela onde está enterrado um santo ou um morábito.

Entretanto parou de chover, o sol voltou. Atravessei a vila em direcção ao Cabo da Roca que estabeleci como a última etapa da minha caminhada. E aqui onde “a terra se acaba e o mar começa”, no dia 23 de Março de 2008 às 13:42 horas da tarde fui o caminheiro mais ocidental da Europa.



Inundado por turistas mas ainda mais de flores amarelas do manto de chorão que cobre todo o topo da falésia, o cabo banhado pelo sol contrastava os azuis marítimos intensos e as nuvens brancas no horizonte que marcavam o limite com o céu. Olhei para trás, para o farol e dirigi-me para lá dando oportunidade a outras pessoas que fossem as mais ocidentais da Europa.

O farol ergue-se a cerca de 22 metros do chão, e a 165 metros acima do nível do mar com um alcance luminoso de 48 Km de distância. Foi fundado no dia 1 de Fevereiro de 1758 e já salvou muitas vidas, sem contar com as vidas por ele iluminadas. E é para mim outro dos pontos brilhantes em que confio para me guiar à noite quando passear pela serra.

Estendi-me calmamente ao sol e durante algumas horas deixei-me ficar a ler “A Terra dos Homens” de Saint-Exupéry. Este autor francês que muito admiro também relativamente ao principezinho, tem um sentido de humanidade incrível, e o que escreve faz-me pensar na importância de cada um no mundo para si próprio e principalmente para o outros. Gostava de marcar o mundo com os meus passos e a minhas palavras, tal como ele com as suas viagens aéreas e as histórias que nos deixou.



E espero ser este o meu primeiro passo...

1 comentário:

Vasco disse...

Bela viagem! Deste-me vontade de arrancar os gessos e subir a Serra. Fica prometido que mal possa acompanho-te numa dessas viagens, nas que queiras companhia.